Domingo, Agosto 31, 2003 :::
Mais uma da série "Aconteceu Mesmo"
Um sujeito, sujo e cheirando à àlcool, aparece na porta da lojinha e pede um trocado para inteirar a passagem para Tamandaré. A dona atrás do caixa olha para sua única funcionária e depois para o sujeito e diz, cheia de boa intenção e consciente de sua responsabilidade social em não dar o peixe mas ensinar a pescar para não viciar o sujeito em esmolas, permitindo a própria consciência de sua condição e uma forma de lutar contra a exclusão social:
- Olha, eu te dou 10 reais se você lavar o toldo em cima da porta.
- Zuzu bem! - respondeu o sujeito.
A dona da loja foi buscar o balde o rôdo e um pano. Deu-os ao pedinte e ficou olhando. Sua funcionária vendo a cena disse:
- Dona Iara, como ele vai limpar o toldo sem escada?
- Verdade.
Nisso o sujeito pegou o balde e num jesto duvidoso arremessou a água do balde no toldo, e errando completamente o alvo acertou a vitrine da loja. Encheu o balde com mais água e tentou uma segunda vez. A água subiu e qunado caía, sem acertar o todo evidentemente, acertou um casal que passava, lá pela sétima tentativa, depois de molhar até dentro da loja, o sujeito desistiu.
A dona Iara, já irritada impediu que ele enchesse o oitavo balde, e disse para o bêbado usar o pano. Este enrolou o pano molhado no rôdo, e como não alcançava direito o toldo, sem escada, só passo o pano na parte de baixo, em vez de limpar espalhou a sujeira. Quando terminou foi atá a dona Iara e disse:
- Pronto, só me paga o serviço.
- Tome - vendo que não adiantava discutir.
Olhando para a sua funcionária:
- Agora vou ter que chamar uma empresa pra lavar isso ficou pior que antes.
- Verdade.
Quando a kombi chegou, trazendo dois funcionários, eles desceram, olharam para o toldo e perguntaram para dona Iara:
- A senhora tem uma escada?
- Eu não!
- Vixe, Valdisney, pega mangueira lá na kombi então.
O problema é que a mangueira estava furada e funcionava graças a dois panos amarrados nela. Vasava um pouco é verdade, molhando todo o interior da loja que o bêbado ainda não tinha molhado. Depois de jogar bastante água e um pouco de sabão e esfregar um pouco com uma vassoura que eles haviam trazido perceberam que algumas manchas eram mais resistentes. Foi quando tiveram a brilhante idéia de passar varsol. Evidente que quando passaram o pano ensopado com o solvente sobre as letras do nome da loja a tinta borrou. Mas como se aquilo fosse normal, terminaram o serviço e foram cobrar:
- Oitenta Reais dona Iara.
Depois de muito pechinchar eles acabaram aceitando setenta!
::: publicado por Benjamin às 12:55 AM
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Domingo, Agosto 17, 2003 :::
Capítulo II
Naquele dia, a volta do trabalho foi pior do que de costume. O dia de trabalho já não tinha sido bom. Chegou um novo carregamento de entrevistas, um lote de 500, vindas do interior, a tarde toda passei separando e classificando segundo o entrevistador e faixa etária, o que facilitava o meu serviço, depois eu precisava conferir e inserir os dados no computador.
Quando eu já estava pronto para começar a inserir os dados, alguém abriu a porta da minha sala, era o Fernando, um entrevistador, desses antigos no serviço, um desses que se conforma com a vida. Casado, três filhos, cinco carnês de compras, prestação do carro e aluguel. Com 36 anos, 16 de entrevista, já tinha largado as ruas, treinava os entrevistadores novos. Dava dicas sobre como abordar um sujeito na rua, que tom usar na hora de fazer perguntas constrangedoras, como escolher as vítimas etc. Quando alguém passava algum aperto ele era chamado para resolver.
Certa vez um novato, seu nome era Uóshinton, com ¿u¿ mesmo, foi entrevistar um senhor, na rua, e a pesquisa era para uma empresa de cuecas.
- Bom dia senhor! - com um belo sorriso.
- Bom dia - seco.
- Meu nome é Uóshinton, com u mesmo ... - sorriso amarelo.
- E daí? - Mais seco
- Eu faço entrevistas... - perdendo o sorriso.
- Para quem? - dando um passo pra cima do Uóshinton.
- Para uma empresa e ... - agora perdendo a direção.
- O que você quer saber, que eu estou com pressa. - Se preparando para sair andando.
- Tá, vou direto ao ponto, qual a marca da sua cueca?
- Você está brincando comigo?
- Não é sério, preciso saber se aperta também!
Neste momento um braço cruza o ar e acerta em cheio o nariz do Uóshinton, que começa a sangrar. Ele nem teve tempo de reagir, ou desviar, era um rapaz franzino e mal alimentado. Não reparou na maleta do senhor, nem reparou que ele estava de terno, não percebeu que estavam em frente a uma delegacia, nem na cicatriz no rosto, nem no sujeito mal encarado, de camisa aberta no peito, correntes de ouro no pescoço e dois seguranças que o acompanhava. Se Uóshinton tivesse seguido as orientações do Fernando isso não teria acontecido.
O advogado ainda queria processar o pobre do Uóshinton, foi quando ligaram para a empresa da delegacia e Fernando foi para lá imediatamente. Não conseguiu evitar que o pobre entrevistador ficasse meia hora preso, mas depois de uma longa conversa, duas caixas de cueca e o talento de Fernando em entrevistar pessoas resolvesse a situação, o rapaz ganhou um dia de folga e voltou para fazer o treinamento todo de novo.
Quando Fernando abriu a porta da minha sala uma lufada de vento varreu minha mesa espalhando todos os papéis pela sala, misturando todas as entrevistas. Quis gritar, mas não consegui.
- Nossa que vento!
- Fecha a porta!
- Sim, mas agora já espalhou tudo.
- Pois é.
- Desculpa aí!
- Tudo bem.
- Você não quer sair hoje?
- Não, obrigado.
- Vai ser divertido, as meninas novas vão junto. Aquelas que entraram semana passada.
- Sei quem são, mas não vai dar.
- Pena.
- Pois é.
- Sabe quando vai terminar essa do detergente?
- Não.
- Ouvi dizer que a próxima vai ser de uma companhia de seguros. Estão querendo fazer uma sondagem sobre os riscos que as pessoas correm dentro e fora de casa. Vai ser interessante.
- Imagino.
- Não está a fim de conversar não é?
- Não.
- Ta bom. Até mais
- Feche a porta!
Quando Fernando saiu fui trancar a porta, que possuía uma janela de vidro fosco, para não ser mais incomodado, quando virei a chave ela quebrou na fechadura. Quis gritar de novo. Lembrei que só existia uma cópia daquela chave. Lembrei também que a janela da minha sala, que ficava no segundo andar dava para o canil da clínica veterinária ao lado.
Revirei minha sala toda tentando encontrar uma chave de fenda, um alicate ou qualquer coisa parecida, mas só encontrei um martelo e um cortador de unha. Primeiro tentei puxar o pedacinho da chave que estava dentro da fechadura, sem sucesso. Depois quis desparafusar a fechadura, consegui retirar o acabamento, depois de vinte minutos, e percebi que só dá pra desmontar tudo com a porta aberta. Foi quando desmontei as dobradiças.
Consegui arrancar a porta, ainda trancada, e quando a coloquei no chão ela escorregou, o vidro bateu e quebrou. Todo mundo do andar ouviu e veio correndo pra ver o que tinha acontecido. Como se já não bastasse o ridículo da platéia ainda cortei meu dedo recolhendo os cacos de vidro. O sangue jorrava do meu dedo e o Fernando sugeriu que fôssemos ao posto de saúde para dar uns pontos no corte. Recusei. Fiz o curativo eu mesmo, enrolando um guardanapo e prendendo com uma fita, bem apertada.
No fim do expediente só queria chegar em casa me trancar e não sair mais. Não me mover se possível. Uma hora de ônibus e estava salvo e seguro. Durante o trajeto olhava pela janela e pensava em como eu tinha ódio da minha vida. Quando desci do ônibus, peguei logo a chave, como se aquele gesto antecipasse a minha segurança, corri até a porta do edifício, abri rapidamente e subi as escadas correndo, abri a porta entrei no apartamento tranquei rápido, tirei minha roupa e coloquei o pijama, deitei no sofá e me cobri. Não quis mais me mexer.
Sentia-me ridículo, humilhado e infeliz. Não entendia porque as coisas davam errado. Não entendia como minha vida havia chegado àquele ponto, sem perspectiva, sem objetivos. Um repetir constante de situações e humilhações. Não conseguia me olhar no espelho e m sentir satisfeito.
Quando criança, eu sonhava com grandes feitos, com aventuras, com descobertas. Minhas tias sempre me perguntavam o que eu queria ser, e sempre respondia ¿cientista, astrônomo ou artista¿, dependendo da época do ano. Queria conhecer as coisas, fazer algo importante. Sonhava em ver meu nome em livros de história, e imaginava, nos meus tempos de escola que um dia dariam aulas sobre mim, explicando quantas coisas eu descobri ou quantas coisas eu fiz. Todos fariam perguntas e meu nome estaria numa praça, numa rua ou numa escola qualquer.
A vida me atropelou e acabei desistindo de cada um dos meus sonhos. As decepções e frustrações foram acumulando desânimo e pessimismo. Na adolescência não acreditava que pudesse fazer algo importante, diminui minhas metas e objetivos. Não me achava mais esperto, nem capaz. Passei a querer apenas o suficiente e o bastante.
Com dezoito anos desisti de realizar qualquer coisa e me contentava apenas em sobreviver. Quando entrei para a faculdade escolhi um curso fácil de passar e que não exigisse muito. Formado, acabei me conformando com o único emprego que apareceu. Senti minha vida diminuindo, perdendo o brilho, se tornando sem graça e sem sal. Estes sentimentos nutriam um veneno do qual não conseguia me livrar, e com o tempo acabei dependendo dele. A inutilidade da minha vida não me feria mais e passei a acreditar que eu existia para ser realmente infeliz e miserável, fadado à humilhação.
Liguei a televisão, detestava ficar sozinho e ela fazia companhia. Não me sentia tão só e parava de pensar em meu veneno. Não assisti nada específico, mas passeava pelos canais em busca de uma imagem que me agradasse. Geralmente nada me agradava. O que eu gostava era dos programas de notícias policiais que mostram ações de policias, presos e acidentes de trânsito, geralmente um motoqueiro de entregas atropelado por um carro. As cenas grotescas dos acidentados sangrando ou a cara dos sujeitos presos na delegacia algemados e escondendo os rostos. Aprendia muito sobre como cometer os crimes, como lavar dinheiro, como enganar a polícia, como fazer documentos falsos, até como falsificar obituário para se livrar de dívidas. Prendia as melhores rotas de fuga e os melhores pontos para assaltos para evitar o policiamento. As reportagens sobre o tráfico de drogas eram os mais instrutivos e complexos, aulas de economia internacional. Mesmo assim achava que seria um péssimo bandido, incompetente como aqueles que apareciam algemados.
Acabei adormecendo no sofá, depois de uma hora de programas chatos. Foi quando tive um sonho esquisito. Há muito tempo não sonhava, ou pelo menos não lembrava. Aquele dia no sofá, porém, gravei cada detalhe, cada movimento, tenho tudo muito vivo até hoje.
Dizem que o sonho é onde realizamos aquilo que não temos coragem de fazer no dia a dia, ou que é uma viagem que a alma faz por um universo paralelo. Ainda tem gente que acha que é premonição, muitos baseiam anos de apostas no jogo-do-bicho, nesta hipótese.
Particularmente acho que simplesmente não sabemos o que são, mas que precisamos deles e eles de nós.
::: publicado por Benjamin às 5:04 PM
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Domingo, Agosto 10, 2003 :::
Há pessoas que se orgulham de ter "personalidade forte". Outras, mais humildes, de ter "personalidade boa", mas francamente, é uma coisa muito besta se orgulhar da personalidade, ou ainda dar a ela um qualificativo qualquer, quem dirá de colocar num currículo, afinal até cachorro tem personalidade.
::: publicado por Benjamin às 1:46 AM
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Sábado, Agosto 09, 2003 :::
Um filme que assisti e gostei foi "Pi", gostei mesmo, embora o final cai no clássico: "para a platéia escolher o que mais gosta", mas mesmo assim a história é boa. Um filme diferente. A busca de Deus se revela uma tortura da alma, e qunto mais próximo maior a tensão. A convergência de Razão e fé e a explicitação do conflito do pragmático com o fundamentalismo é interessante.
::: publicado por Benjamin às 12:03 AM
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